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Só descobri que era autista depois de adulta

Experiências e relatos, de uma mãe, influencer, fotografa e escritora que inspiram vidas

25/04/2023 14h31 Atualizada há 2 anos
Por: Evelyn Tupan Fonte: Evelyn Tupan
Foto: Marcelo Morais
Foto: Marcelo Morais

Hoje a matéria será um pouco diferente. Em primeira pessoa, e contando um pouco sobre mim, acho até interessante trazer para vocês esses fatos até porque a minha vida é uma vida de inspiração para muitos pais de autistas. E como a escritora dessa coluna é justamente uma autista, acredito que o post será rico nos detalhes. Muitas pessoas não sabem como lidar com autistas por falta de conhecimento, outras pessoas fazem questão de não lidar com autistas por acharem um grande inconveniente. Estão acostumados a verem crianças autistas entrando em crises em shoppings ou outros locais cheios de estímulos. Torcem o nariz, julgam os pais, e um número muito pequeno, pequeno mesmo, de indivíduos se comovem, e/ou fazem algo para ajudar, como buscar uma água, pegar as sacolas da mãe para que ela carregue o filho no colo. Em fim,  alguns de nós, autistas, conseguimos encontrar na internet um meio para ajudar a educar a população em relação ao espectro autista. Passamos por muitos momentos intensos, vimos  nossas mães, pais  chorarem e na época não conseguíamos entender os motivos.  Eles já sofriam tanto preconceito naquela época. Minha mãe mesmo ouvia coisas do tipo:”Mãe a senhora pode buscar ela bem mais cedo da escola, deixa só uma hora aqui que já tá bom, ela atrapalha a turma“

”Tem um “guri” irritante dentro dessa menina, só pode”

Em minha casa, sempre tive apoio de minha mãe e minha avó (cresci longe de meu pai por isso falo mais delas) e mesmo sabendo de todas as minhas dificuldades e peculiaridades, acredito que justamente por isso, elas me motivaram, e me impulsionaram para eu desenvolver minhas habilidades. De suas bocas só eram proferidas bênçãos e motivações para mim.

Mas eu não deixei de ser autista em nenhum segundo dos meus dias e abaixo vou listar algumas de minhas características:

Conheça mais algumas de tantas outras características que me acompanham desde criança

  • ·         Apego a horários, e rotina ( sempre cronometrei tudo, cada atividade do dia desde acordar até o horário de dormir (até hoje);
  • ·         Extremamente Impulsiva; (Estou no processo);
  • ·         Tinha estereotipias  como esfregar os dedos e pegar na orelha, e as vezes me balançar(até hoje);
  • ·         Tinha rigidez com regras e sempre seguia tudo a risca ( hoje eu indago, mas, ainda sim, sou rígida);
  • ·         Tinha apego a objetos (até hoje);
  • ·         Me sentia fria em relação aos sentimentos e sempre forcei muito para me parecer “envolvente” (até hoje inclusive com meus filhos);
  • ·         Sentia grande necessidade de aprender diversos assuntos para poder ser aceita em  grupos de pessoas; (Estou no processo);
  • ·         Tinha seletividade alimentar (até hoje);
  • ·         Tinha hipersensibilidade sonora e muita sensibilidade tatea (até hoje);
  • ·         Falava muito sobre o mesmo assunto e repetindo a mesma coisa;(Estou no processo);
  • ·         Tinha inúmeros rituais ao longo do  dia como por exemplo enfileirar meus pertences antes de brincar ou de iniciar atividades (Hoje praticamente não faço)
  • ·         Embora criativa, tenho dificuldade em construir uma mentira, até hoje, pois é muito abstrato para mim;
  • ·         Indiferença perante situações perigosas;  pegava sapos para brincar, subia em altas árvores, pulava em águas desconhecidas, enfiava pregos nas tomadas, passava mão em cachorros bravos e sim, eu vivia machucada (até hoje sinto indiferença perante o perigo);
  • ·         Não consigo ter o medo como as pessoas neurotípicas sentem. Suporte para mim ajuda inclusive nisso, me repreender, chamar a minha atenção;
  • ·         Não sentia alguns cheiros e sentia outros cheiros que ninguém sentia (até hoje);
  • ·         Muita rigidez cognitiva, e até hoje é torturante tentar ser flexível;
  • ·         Tinha muito receio  de magoar as pessoas então eu aprendi filtrar as palavras (o que ainda é difícil pra mim);
  • ·         Dava risada de piadas sem entendê-las (Estou no processo);
  • ·         Colecionava objetos (até hoje);
  • ·         Fazia muito masking (estou no processo);
  • ·         Não me interessava pela vida dos outros (até hoje );
  • ·         Tinha crises(até hoje);
  • ·         Era muito nervosa e batia em outras crianças;
  • ·         Me olhava muito no espelho (até hoje) ;
  • ·         Gostava de repetir as roupas (até hoje );
  • ·         Não ligava de usar roupas sem lavar (estou no processo);
  • ·         Comia rápido para ter menos contato com as texturas dos alimentos (até hoje);
  • ·         Ambiente cozinha me deixa apavorada, não cozinho.
  • ·         Não consigo lidar com números fora de ordem e com contagens regressivas e por muito tempo não fazia ideia de que a maioria de minhas crises eram desencadeados por números fora de ordem, por isso sempre peço para minhas clientes me enviarem seleções de fotos pela ordem correta, não escolher uma foto no começo, aí colocar uma lá do final , depois outra do começo. E foi através de terapias que conseguimos entender que os números em ordens erradas vinham me causando muito mal, a aproximadamente 12 anos (período que eu fotografo) e sem ajuda eu iria sucumbir.
  • ·         Não dormia  durante o dia (até hoje)
  • ·         Tenho altas habilidades, mesmo com deficiência de atenção consigo executar muitas atividades ao mesmo tempo, sendo autodidata em música, inglês entre outros;
  • ·         Sempre abracei quem eu gostava, até hoje eu abraço;
  • ·         Pessoas desconhecidas chegando a mim sem avisar pode me desencadear uma crise;

 Sobre prejuízos:

Uma pessoa autista possui inúmeros prejuízos, eu por exemplo não consigo executar muitas atividades básicas do dia a dia, como cozinhar, ou fazer compras, ou passar muito tempo no banheiro. Nem mesmo dirigir eu posso! Hoje entendo que carrego em meu DNA. Ninguém se torna autista de uma hora para outra. Nasci assim, corre em minhas veias cada característica citada como muitas outras que não coloquei. Tem muitos autistas em minha família, inclusive mais idosos que não são verbais. E sei que sempre  terei prejuízos. Mas estou aprendendo a lidar  com cada um, eu posso tudo. De um jeito diferente , e me conhecendo. Eu chego lá.

Muitas pessoas podem se identificar com uma ou outra característica do espectro, mas quero  que entenda que todas as pessoas possuem algumas dessas características, afinal de contas, quem gosta de ouvir um alarme alto tocando?! NINGUÉM! A questão é, não gostar não é o mesmo QUE NÃO CONSEGUIR agir, simplesmente um autista pode entrar em crise com situações que podem ser apenas irritantes para todos.

Bom, espero que eu tenha cooperado um pouco mais para seu entendimento sobre o transtorno que afeta milhares de brasileiros.

 

 

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AutistaStory com Evelyn Tupan, uma autista adulta que conseguiu desenvolver suas habilidades ao longo da vida e hoje mostra sua rotina no Instagram e como consegue ser referência em vários assuntos mesmo com suas deficiências neurológicas!
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